O continente africano já conhecia a escravidão, pois esta já
era presente nas sociedades tradicionais. Porém, era uma escravidão diferente
da que foi empreendida pelos europeus a partir do século XV, na era mercantil,
onde a comercialização de mão de obra humana negra era vista sendo mais a lucrativa
e valiosa mercadoria para a metrópole do que a indígena.
No texto “Memória D’África: A temática africana em sala de
aula”, dos autores Carlos Serrano e Mauricio Waldman, é ressaltado um estudo
sobre a África tradicional, ou seja, antes da chegada dos europeus. Em
relação as sociedades tradicionais africanas, Serrano e Waldman expõem que a
identidade de um africano típico está associada ao núcleo familiar. Em que há a
valorização da mulher fértil e do homem viril, ou seja, da família extensa, com
isso garantia-se maior domínio das terras e continuidade ancestral, preservando
o culto aos ancestrais.
A família constituía o centro da vida social manifestando
uma grande diversidade étnica e cultural que se juntavam formando tribos,
reinos ou impérios. Dentro do núcleo familiar a mulher que cometesse
adultério poderia ser vendida e tornava-se escrava, pois apenas ao homem era
garantido a poligamia, se este tivesse condições de bancar todas as mulheres
igualmente. Além da valorização da família extensa, e da existência de uma
diversidade étnica e cultural, há também a valorização da terra, em que esta
era um bem coletivo da família, do reino, do povo.
O continente africano é visto como sendo um dos berços da
escrita, porém na África tradicional tinha-se a predominância da tradição oral.
Essa comunicação que ocorria por meio da oralidade que coloca como papel de
destaque nessa pratica os griots, ou seja, “contadores de história”. O
objetivo dessa tradição oral era de eternizar a memória coletiva, fazendo
com que a identidade étnica fosse conservada.
A cultura da África tradicional também foi marcada pela
existência de redes de caminhos ou trocas, ou seja, as chamadas feiras locais.
Estas eram espaço de sociabilidade, de trocas comerciais, de acordos de
casamento entre outros. Fora as feiras locais, A África ao contrário dos
pensamentos de muitos eurocentristas, não foi um continente fechado e que foi
aberto pelos europeus a partir do século XV, desde o século VII na África
tradicional havia o intercâmbio comercial e cultural, isso era o comercio transcontinental.
Nesse comércio comercializava-se marfim, ouro panos, peles
de animais e riqueza humana (negociação de africanos e africanas) para
escravidão. Porém uma escravidão diferente da empreendida pelos europeus a
partir do século XV.
Esses africanos e africanas comercializados submetidos a
escravidão eram levados para trabalhar no califado, nos haréns, nos palácios,
na agricultura (cultivando aveia, açúcar e arroz), ou até mesmo como membros da
“guarda-negra”, em que eram admirados por sua coragem e habilidade bélica.
Vários fatores poderiam tornar um africano ou africana
escravos na África tradicional, a existência de escravo por guerra, seria
aquele que fosse capturado durante uma batalha; escravo nascido de mulheres
escravas, assim estes permaneciam se não fossem resgatados; escravo proveniente
do comercio transcontinental (de longa distância); escravo para pagar um
castigo imposto por julgamento, normalmente quando se quebrava uma norma, ou
furtava ou no caso das mulheres por adultério, pois apenas ao homem era
permitida a poligamia; escravo por dívida, onde tornava dependente do seu
devedor e escravo por tempo de penúria, seria quando não se tinha o que comer,
colocando-se voluntariamente a posição de escravo.